A Guerra do Fim do Mundo
Em finais do século XIX, no Brasil, no sertão da Baía, um vasto movimento popular formado em torno de um místico - António Conselheiro - funda uma sociedade à margem do mundo oficial. O governo do Rio de Janeiro reage, enviando uma pequena força militar para "repor a ordem". Mas a resistência foi imediata e eficaz, obrigando a tropa a fugir. E com isto se dá início à Guerra de Canudos, para a qual foram mobilizados milhares de soldados que, depois de muitos mortos, os sublevados são, enfim, esmagados a ferro e fogo.
É a história desta guerra que, sob a forma de romance - e que extraordinário romance! - Mario Vargas Llosa nos conta neste livro.
Dizia-lhes coisas fáceis de entender, verdades em que podiam acreditar.
A sua voz era persuasiva, chegava à alma sem passar pela cabeça, e mesmo a um ser oprimido pela confusão, como ele, parecia-lhe um bálsamo que suturava velhas e atrozes feridas.
Não deveria a morte, que permitia ao homem ver a cara de Deus, ser venerada?
... e dissesse que era importante, para salvar a alma, destruir a própria vontade - veneno que inculcava em cada um a ilusão de ser um pequeno deus superior aos que o rodeavam - e substitui-la pela Terceira Pessoa, a que construía, a que operava, a Formiga Diligente,...
(Lembrai-vos dos cenáculos barcelonenses que se propunham assaltar os conventos para devolver às freiras, através da gravidez, a condição de mulheres que a reclusão lhes tinha arrebatado?)
O instinto de liberdade, que a sociedade classista sufoca por meio dessas máquinas trituradoras que são a família, a escola, a religião e o Estado, guia os passos destes homens que, com efeito, parecem ter-se rebelado, entre outras coisas, contra a instituição que pretende bridar os sentimentos e os desejos.
... O amor livre, a livre paternidade, a desaparição da infame fronteira entre filhos legítimos e ilegítimos, a convicção de que o homem não herda nem a dignidade nem a indignidade.
... mas disse inumeráveis vezes que quem cuidava muito do corpo podia descuidar a alma e que, como Luzbel, uma formosa aparência costumava ocultar um espírito sujo e nauseabundo..
Têm alguma coisa a ver com os interesses dos humildes as querelas retóricas dos partidos burgueses?
...« são prudentes, desconfiam», pensa. «Sabem o que fazem, são sábios.»
... e falou do como o Mal deitou raízes na terra. Antes do tempo, tudo era Deus e o espaço não existia. Para criar o mundo, o Pai precisara de se retirar em si mesmo, a fim de fazer um vazio, e a ausência de Deus causou o espaço onde surgiram, em sete dias, os astros,a luz, as águas, as plantas, os animais e o homem. Mas, ao ser criada a Terra mediante a privação da divina substância, haviam sido criadas também as condições propícias para que os mais opostos ao Pai, quer dizer, o pecado, tivessem uma pátria. Assim, o mundo nasceu maldito, como terra do Diabo, mas o Pai teve piedade dos homens e enviou o seu Filho para reconquistar para Deus esse espaço terreal onde estava entronizado o Demónio.
..., como explicou Bakunine, a sociedade prepara os crimes e os criminosos são apenas os instrumentos que os executam.
... pois a exploração do homem pelos donos do dinheiro, base do sistema republicano, não é menos escravidão que a feudal.
Muitos do recém-vindos mudavam de nome, para simbolizar assim a nova vida que começavam.
O cansaço e o desgosto enrugaram-lhe a testa e tem olheiras.
Sim, para alguém que acreditava que o destino era em boa parte inato e estava escrito na massa encefálica, onde umas mãos hábeis e uns olhos sagazes o podiam auscultar, era duro comprovar a existência dessa margem imprevisível, que outros seres podiam manejar com horrível abstraimento da vontade própria, da aptidão pessoal.
O sexo tinha sido para ele assim como um alimento, algo que aplacava uma necessidade primária e logo provocava o fastio.
A saudade é uma cobardia
É pequeno, quase raquítico, muito ágil. O calor enrubesce todas as caras, mas ele não está a transpirar. A sua fraqueza física contrasta com a força que parece criar à sua volta, devido à energia que brilha nos seus olhos ou à segurança dos seus movimentos. Olha como alguém que é dono de si próprio, sabe o que quer e costuma mandar.
É a história desta guerra que, sob a forma de romance - e que extraordinário romance! - Mario Vargas Llosa nos conta neste livro.
O romance, publicado em 1981, que se constrói pela sobreposição de camadas cada vez mais densas de factos, tipos, conspirações e personagens espetrais mais ou menos perdidas na intriga, é um vasto fresco que aborda temas aparentemente tão diversos como a corrupção das elites e o oportunismo dos políticos, a sobranceria militar e a inaptidão das forças desencadeadas, a nua humanidade dos deserdados e a sua disponibilidade para seguirem os vendedores de ilusões.
António Mega Ferreira
Dizia-lhes coisas fáceis de entender, verdades em que podiam acreditar.
A sua voz era persuasiva, chegava à alma sem passar pela cabeça, e mesmo a um ser oprimido pela confusão, como ele, parecia-lhe um bálsamo que suturava velhas e atrozes feridas.
Não deveria a morte, que permitia ao homem ver a cara de Deus, ser venerada?
... e dissesse que era importante, para salvar a alma, destruir a própria vontade - veneno que inculcava em cada um a ilusão de ser um pequeno deus superior aos que o rodeavam - e substitui-la pela Terceira Pessoa, a que construía, a que operava, a Formiga Diligente,...
(Lembrai-vos dos cenáculos barcelonenses que se propunham assaltar os conventos para devolver às freiras, através da gravidez, a condição de mulheres que a reclusão lhes tinha arrebatado?)
O instinto de liberdade, que a sociedade classista sufoca por meio dessas máquinas trituradoras que são a família, a escola, a religião e o Estado, guia os passos destes homens que, com efeito, parecem ter-se rebelado, entre outras coisas, contra a instituição que pretende bridar os sentimentos e os desejos.
... O amor livre, a livre paternidade, a desaparição da infame fronteira entre filhos legítimos e ilegítimos, a convicção de que o homem não herda nem a dignidade nem a indignidade.
... mas disse inumeráveis vezes que quem cuidava muito do corpo podia descuidar a alma e que, como Luzbel, uma formosa aparência costumava ocultar um espírito sujo e nauseabundo..
Têm alguma coisa a ver com os interesses dos humildes as querelas retóricas dos partidos burgueses?
...« são prudentes, desconfiam», pensa. «Sabem o que fazem, são sábios.»
... e falou do como o Mal deitou raízes na terra. Antes do tempo, tudo era Deus e o espaço não existia. Para criar o mundo, o Pai precisara de se retirar em si mesmo, a fim de fazer um vazio, e a ausência de Deus causou o espaço onde surgiram, em sete dias, os astros,a luz, as águas, as plantas, os animais e o homem. Mas, ao ser criada a Terra mediante a privação da divina substância, haviam sido criadas também as condições propícias para que os mais opostos ao Pai, quer dizer, o pecado, tivessem uma pátria. Assim, o mundo nasceu maldito, como terra do Diabo, mas o Pai teve piedade dos homens e enviou o seu Filho para reconquistar para Deus esse espaço terreal onde estava entronizado o Demónio.
..., como explicou Bakunine, a sociedade prepara os crimes e os criminosos são apenas os instrumentos que os executam.
... pois a exploração do homem pelos donos do dinheiro, base do sistema republicano, não é menos escravidão que a feudal.
Muitos do recém-vindos mudavam de nome, para simbolizar assim a nova vida que começavam.
O cansaço e o desgosto enrugaram-lhe a testa e tem olheiras.
Sim, para alguém que acreditava que o destino era em boa parte inato e estava escrito na massa encefálica, onde umas mãos hábeis e uns olhos sagazes o podiam auscultar, era duro comprovar a existência dessa margem imprevisível, que outros seres podiam manejar com horrível abstraimento da vontade própria, da aptidão pessoal.
O sexo tinha sido para ele assim como um alimento, algo que aplacava uma necessidade primária e logo provocava o fastio.
A saudade é uma cobardia
É pequeno, quase raquítico, muito ágil. O calor enrubesce todas as caras, mas ele não está a transpirar. A sua fraqueza física contrasta com a força que parece criar à sua volta, devido à energia que brilha nos seus olhos ou à segurança dos seus movimentos. Olha como alguém que é dono de si próprio, sabe o que quer e costuma mandar.

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